BLACK DEMONS (1991)

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Há alguns anos eu comentei por aqui os dois filmes da série DEMONS, dirigidos pelo Lamberto Bava e produzidos pelo Dario Argento. Quem nunca leu, pode conferir clicando aqui e aqui. Mas o que isso tem a ver com BLACK DEMONS, de Umberto Lenzi? A princípio, nada. No entanto, como a picaretagem italiana não tem fim, resolveram lançar o filme na Itália com o título DEMONI 3, mesmo não tendo absolutamente nenhuma relação com os filmes anteriores… Só que os caras foram ainda mais longe e a série DEMONS acabou ganhando outras “continuações” sem qualquer sentido… Mas isso é assunto pra outros posts.

Hoje vamos de DEMONI 3, ou melhor, BLACK DEMONS, que é como prefiro chamar… Não é dos filmes mais lembrados do Umberto Lenzi, talvez porque não seja mesmo lá grandes coisas em comparação com a fase de ouro do horror italiano e com a própria obra do diretor, mas não deixa de ser uma dessas tralhas divertidas do gênero que foram esquecidas ao longo dos anos. A história é simples, mas eficaz: três estudantes estrangeiros vem parar aqui no Brasil, no Rio de Janeiro, para pesquisar sobre religiões africanas, vodu e coisas do tipo. Dick (Joe Balogh), ao se afastar dos outros, acaba se envolvendo em um ritual de macumba e, de alguma forma, é possuído pelo misterioso poder da magia negra.

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Do Rio, o trio parte para Belo Horizonte… Só que numa estradinha de chão rodeado de matagal, porque é exatamente assim as rodovias que vão do Rio à BH, né? Mas tudo bem, a gente entende que Lenzi quer fazer o público de fora pensar que o Brasil é só mato, animais selvagens e voodoo, ao mesmo tempo em que todos os brasileiros falam inglês. Durante a viagem, o veículo do trio quebra e acabam sendo ajudados por um casal que mora nas proximidades e que lhes oferece repouso enquanto resolvem o problema do carro.

A casa é uma dessas antigas mansões de algum barão do café do século IXX que usava escravos como mão de obra. Não muito longe dalí, há justamente um cemitério com os túmulos de seis escravos que, segundo uma lenda, foram mortos por seus senhores um século antes e que em algum momento retornariam em busca de vingança. Quando Dick, possuído por seja lá o que for, é levado quase em transe a este cemitério e começa a tocar a música que gravou durante o ritual de magia negra, ele acaba tornando a lenda em realidade. Os escravos saem das tumbas e começam a realizar sua sangrenta vingança…

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Mas para chegar a até aqui não é das tarefas das mais fáceis… BLACK DEMONS tem um ritmo lento, a produção é barata e acaba não tendo tantos atrativos como outros exemplares do horror italiano. No entanto, consegui entrar na onda do filme, até porque Lenzi tem bom domínio narrativo, mesmo trabalhando com tão pouco e com roteiro e atores tão ruins. O uso que o sujeito faz das locações, das paisagens do Rio de Janeiro, das favelas e do interior são muito bons. Sem contar que a iconografia dos rituais e do universo de magia negra tornam a história genérica um pouco mais interessante.

E quando a violência finalmente acontece, Lenzi não hesita em mostrar tudo graficamente nos mínimos detalhes. Há pelo menos três mortes mais explícitas, com direito a olhos arrancados e gargantas cortadas com muito sangue. Os próprios zumbis são muito bem feitos, com feridas nojentas e a deterioração mostrada em detalhes.

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Um dos maiores problemas de BLACK DEMONS acaba sendo os atores. Joe Balogh é quem se destaca, mas o restante do elenco, principalmente os “talentos” brasileiros locais, são terríveis. A exceção é a mulher que interpreta a criada da casa, tem carisma, mesmo falando um inglês péssimo. O próprio Lenzi afirma em entrevista que os problemas de atuação foram um dos motivos de tornar o filme mais fraco do que previa que fosse. Também é divertido que o filme tenha um toque levemente político, a ideia de escravos negros, agora zumbis de pele escura, atacando pessoas brancas, é uma peculiaridade curiosa. Lenzi fala um pouco sobre isso no extras do DVD, mas ainda sente que é apenas um filme de terror sem significados mais profundos.

Mesmo com seus problemas, não achei tão ruim BLACK DEMONS. A violência é das boas, os zumbis são brutais e matam sem piedade e a direção de Lenzi é inspirada, apesar da precariedade da produção. E é só isso o que eu poderia querer de um filme como esse…

★ ★ ★

PLAY MISTY FOR ME (1971)

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Em 1971 Clint Eastwood era uma das principais figuras do cinema comercial americano, tendo construído seu nome em filmes de faroeste e ação. PLAY MISTY FOR ME, no Brasil lançado como PERVERSA PAIXÃO, foi sua primeira investida como diretor e a surpresa inicial é o fato do filme ser um crazy bitch thriller ao estilo de ATRAÇÃO FATAL, sobre um DJ de rádio que se torna o objeto de obsessão mórbida de uma fã obcecada. Um filme de romance às avessas que se torna um autêntico pesadelo. E, convenhamos, é algo que está bem longe dos filmes de ação pelos quais Clint era então conhecido.

Mas olhando hoje, quase 50 anos depois, percebe-se claramente que PLAY MISTY FOR ME trata-se de um trabalho muito pessoal de Clint, cheio de interesses e obsessões que de certa forma o acompanharam durante toda a sua carreira. Uma das principais características é o fato dele mesmo incorporar o protagonista, um apresentador de rádio responsável por um programa de jazz. O filme é, portanto, literalmente invadido pela música, onipresente, dos mais populares ritmos aos mais elegantes (Errol Garner, com a música Misty, citada no título do filme) e para quem não sabe o homem é um aficcionado por jazz e blues… Muita gente reclama do prolongamento da sequência do festival, mas acho que é a melhor exemplificação dessa lógica, esses minutos “ao vivo” do festival de Monterey, onde Eastwood filma os músicos e o público em transe, etc… Uma magnífica declaração de amor de Clint à música.

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A trama de PLAY MISTY FOR ME é sobre David Garver, este disc-jockey de fala mansa que Clint interpreta. Depois de uma noite caliente com sua fã número um, Evelyn (Jessica Walter), ele dá a ela a velha desculpa “Eu te ligo depois“. Só que ela realmente acredita nas palavras do sujeito. Logo, ela está surgindo na casa dele com compras, ligando em horários estranhos e aparecendo completamente nua em sua porta. À princípio David tolera o comportamento dela, mas quando ele resolve volta para Tobie (Donna Mills), um antigo romance, Evelyn entra no modo full-crazy bitch stalker. Invade a casa dele histérica, destrói seus móveis, estraga uma importante entrevista de emprego, até esfaqueia sua empregada antes de ir atrás da namorada de David. Ao final, por ser Clint Eastwood, ele não tem nenhum problema (SPOILER) em dar um soco na cara dela e vê-la cair com tudo e se espatifar nas pedras de uma ribanceira à beira-mar…

O legal é que PLAY MISTY FOR ME não gasta muito tempo enrolando. É bem direto no tema do “perseguidor obcecado” e alguns dos melhores momentos ilustram a facilidade com que David cai nas armadilhas de Evelyn e o quão impossível é para ele se livrar. Chega a ser angustiante… E David acaba sendo cúmplice em sua própria crise. O filme prenuncia cuidadosamente o lado sombrio de Evelyn, de um modo até exagerado no maniqueísmo, sem sutilezas, e o filme enfatiza que a única coisa que impede David de sentir o perigo é sua própria arrogância. E a luxúria, claro, já que David é um mulherengo cujo relacionamento com Tobie está sendo testado por conta de suas conquistas extracurriculares. E como o colega de David, Al (James McEachin), diz com uma piscadela: “Quem vive à espada, morre pela espada“.

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A última hora de filme compensa bem a premissa, com várias cenas tensas de suspense e violência. E Jessica Walter devora o seu papel, criando um monstro memorável, baseado em emoções críveis e perversas. Talvez falte a tal sutileza à personagem, mas dentro da proposta tão direta na qual o filme lida com o assunto, ela convence fácil com uma atuação expressiva e perturbadora. Clint também faz um bom trabalho na frente da câmera, desempenhando basicamente o mesmo que em todos os seus filmes, exceto que ele quase não mata ninguém por aqui. E transa mais (prefere usar a outra arma, se você me entende)…

Na direção, Clint se deixa guiar pelos ensinamentos de seus mestres, Sergio Leone (com vários planos detalhes dos olhos de seus personagens) e Don Siegel (e é até comovente que Clint tenha colocado Siegel para fazer um pequeno papel como o barman favorito de David). Mas muito do estilo autoral da direção de Eastwood se manifesta nesse seu primeiro trabalho, especialmente o uso da iluminação escura, no cuidado com as composições e no ritmo lânguido… Não deixa de ter falhas (pesa a mão alguns momentos melosos demais entre David e Tobie) e uma certa hesitação entre ser classicista ou Nova Hollywood… Mas o resultado não deixa de funcionar. PLAY MISTY FOR ME é uma sólida estreia, um thriller angustiante muito bem executado para o primeiro esforço de um diretor que se tornaria um dos melhores do ramo.

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FAVORITOS DE 2019

Meu tradicional TOP 20 com os filmes que pessoalmente e por diversos aspectos mais me agradaram durante 2019. Como sempre, o critério principal são as produções recentes conferidas neste ano, mas com margem até de um ano. Ou seja, filmes de 2018 que acabei conferindo só em 2019 estão elegíveis.

E para provar como sou extremamente inconstante, algumas posições dessa relação já não possuem coerência alguma com a lista de melhores da década… Mas, foda-se, né?

Segue a lista:

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EARNZayUIAEc4Gc19. MIDSUMMER (Ari Aster, 2019)

MV5BN2U4NGEwMGItN2QzYi00NzAxLTgxY2YtYWUwOGQ0MjdmN2RhXkEyXkFqcGdeQXVyMjMzMDI4MjQ@._V1_SX1777_CR0,0,1777,744_AL_18. US (Jordan Peele, 2019)

mv5byjbizta1zdetodc5my00yje1lwjknjitytc5owrkotaxngi0xkeyxkfqcgdeqxvynzi1nzmxnzm40._v1_sx1777_cr001777832_al_.jpg17. 6 UNDERGROUND (Michael Bay, 2019)

MV5BOWFlMWM2ZTUtMGM1NC00ZDBjLTg2MWUtNDYzNzFhMTZmNzI5XkEyXkFqcGdeQXVyMTkzODUwNzk@._V1_16. BACURAU (Juliano Dornellas e Kleber M. Filho, 2019)

MV5BNDhiZmQ5NjAtZDVhZC00YzkxLThmN2UtMmEwMDZlODBmODllXkEyXkFqcGdeQXVyODUxNjcxNjE@._V1_15. HIGH LIFE (Claire Denis, 2018)

MV5BMDBlN2U5MGItNDdkOC00YjMwLTgwNDQtZGNjZmMxZjk5MzllXkEyXkFqcGdeQXVyNzI2NzgzMzc@._V1_SX1777_CR0,0,1777,999_AL_14. O BAR DA LUVA DOURADA (Fatih Akin, 2019)

MV5BY2Q2ZTU2YjEtMTQ3Yy00MmI1LWFiMDAtMTIzOTRiZWIwNjFkXkEyXkFqcGdeQXVyNjM5MDU4OTU@._V1_SX1777_CR0,0,1777,740_AL_13. JOHN WICK: CHAPTER 3 – PARABELLUM (Chad Stahelski, 2019)

EItgqtzWsAE2xNd12. PARASITE (Bong-Joon Ho, 2019)

EEwcb6qXYAAdgzF11. AVENGEMENT (Jesse V. Johnson, 2019)

mv5bnjdkytjjotutndi0ni00njg0lwjkzdgtnte1mtgwzmeynzm3xkeyxkfqcgdeqxvymtkxnjuynq4040._v1_sy1000_cr0011951000_al_.jpg10. THE LIGHTHOUSE (Robert Eggers, 2019)

the_traitor-publicity_still-h_201909. IL TRADITORE (Marco Bellocchio, 2019)

every-m-night-shyamalan-movie-ranked-from-worst-to-best08. GLASS (M. Night Shyamalan, 2019)

D0Dm9TmUUAAorV407. DRAGGED ACROSS CONCRETE (S. Craig Zahler, 2018)

MV5BNmE5YWIwNGYtNDFkOS00OWY4LThhYzUtMWVlZTFjMzA3YWVjXkEyXkFqcGdeQXVyMTAzMDg4NzU0._V1_SX1777_CR0,0,1777,744_AL_06. UNCUT GEMS (Josh e Benny Safdie, 2019)

MV5BNDQzMWU5ODgtMTBiYy00NDQwLWFiYTEtYTMyYmMwMTQ4MTY2XkEyXkFqcGdeQXVyNjgzMjQ0MTA@._V1_05. VITALINA VARELA (Pedro Costa, 2019)

MV5BMmZlZmYzMTktZjdjZi00NjEyLTllMjMtYWVlMjhhNDQ0MTBjXkEyXkFqcGdeQXVyNjUwNzk3NDc@._V1_04. AD ASTRA (James Gray, 2019)

MV5BODEzODUwYWMtYjdlMC00ODY5LTlmMTgtMGM1MDAyMWNmZDEzXkEyXkFqcGdeQXVyNjUwNzk3NDc@._V1_03. THE MULE (Clint Eastwood, 2018)

EGNWDrrWsAMiI3g02. ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD (Quentin Tarantino, 2019)

EFKSgyWWkAUQ_FY01. O IRLANDÊS (Martin Scorsese, 2019)

UM ÓTIMO 2020 PARA TODOS

MELHORES DA DÉCADA (2010 – 2019)

Mais uma listinha. Por aqui, vai uma versão resumida, um ranking com os meus dez filmes favoritos desta década que termina. No meu Instagram e no Letterboxd postei uma relação mais avantajada, com 100 filmes.

tumblr_d2a78a86fb05b75fb07d3768cd712491_46432d52_128010. SHUTTER ISLAND (2010), de Martin Scorsese

tumblr_pkv7gg64JH1x5knrko1_128009. ONLY GOD FORGIVES (2013), de Nicolas Winding Refn

mv5bmtq3nju2mzgwov5bml5banbnxkftztcwmdiwmta0nw4040._v1_sx1777_cr001777999_al_.jpg08. 4:44 (2011), de Abel Ferrara

MV5BZTQ4MTFiZDctOTRhMC00M2ZmLTkyYWEtOTVlNDJmZGMyN2Q0XkEyXkFqcGdeQXVyOTA2MzQwMg@@._V1_07. FIRST REFORMED (2016), de Paul Shrader

enb9-l8xyaatcui.jpeg06. HOLY MOTORS (2012) de Leos Carax

ELtSB-RUUAECsAr05. MAD MAX: FURY ROAD (2015), de George Miller

ENI9EwjXYAAbXTw04. THE LOST CITY OF Z (2016), de James Gray

EFKSgyWWkAUQ_FY03. O IRLANDÊS (2019) de Martin Scorsese

EDCM-grXUAA1QZx02. HARD TO BE A GOD (2013), de Aleksey German

MV5BMDFlMmFiMzktZWJkMy00NDEwLThhYTEtNWI3OTU5NWUzMjI3XkEyXkFqcGdeQXVyOTc5MDI5NjE@._V1_01. O CAVALO DE TURIM (2011), de Béla Tarr

GRANDES FILMES DE AÇÃO DA DÉCADA (2010 – 2019)

Iniciando os trabalhos de final de ano/década, com algumas listas de filmes favoritos e escolhas pessoais. Vamos começar com a dos filmes de ação que, particularmente, me chamaram a atenção durante estes últimos dez anos. Em ordem cronológica:

EMytrKQWkAAfzGk13 ASSASSINS (2010), de Takashi Miike

D2dAPUuW0AcQCKtESSENTIAL KILLING (2010), de Jerzy Skolimowski

TheExpendables-RourkeMirrorOS MERCENÁRIOS (The Expendables, 2010), de Sylvester Stallone

ef3f90565e8c3366cffa899ef1d52336UNDISPUTED III: REDEMPTION (2010), de Isaac Florentine

EMMkB9nWkAAfmYOUNSTOPPABLE (2010), de Tony Scott

DuVCkVnWsAA8BllFAST FIVE (2011), de Justin Lin
Menção honrosa: FAST & FURIOUS 6 (2013), de Justin Lin, e
FAST 7 (2015), de James Wan

ELnh5YCW4AAOZmNTHE RAID (2011), de Gareth Evans

D0ld2KJWoAAkjCJDREDD (2012), de Pete Travis

EBUQkcAXkAM3fRdOS MERCENÁRIOS 2 (2012), de Simon West

C2EBtnBXUAUYyEgNUIT BLANCHE (2011), de Frédéric Jardin

D70krXjXYAMFbSQRESIDENT EVIL: RETRIBUTION (2012), de Paul W. S. Anderson

DvmHP7BUUAAsgnoSKYFALL (2012), de Sam Mendes

DVjdFKvUMAEuWXcUNIVERSAL SOLDIER: DAY OF RECKONING (2012), de John Hyams

DfGmU5PUwAAbpuATHE PACKAGE (2013), de Jesse V. Johnson

EMWmbT6WwAAPlY7EDGE OF TOMORROW (2014), de Doug Liman

EM9Te8tUcAAkhXHJOHN WICK (2014), de David Leitch e Chad Stahelski

D-oowzQWwAAGjTcNON-STOP (2014), de Jaume-Collet Serra
Menção Honrosa: os outros filmes de ação do Serra em parceria com Liam Neeson: UNKNOWN (2011), RUN ALL NIGHT (2015) e
O PASSAGEIRO
(2018)

ELCpHq7UEAAGocyBLACKHAT (2015), de Michael Mann

ELtSB-RUUAECsArMAD MAX: FURY ROAD (2015), de George Miller

CPNSS5qUsAABtNrSPL 2: A TIME FOR CONSEQUENCES (2015), de Soi Cheang
Menção honrosa: MOTORWAY (2012), também dirigido por Soi Cheang

DGUIZ_vU0AExXAOJOHN WICK: CHAPTER 2 (2017) de Chad Stahelski

Doler2bW0AAYjn9MISSION: IMPOSSIBLE – FALLOUT (2018), de Christopher McQuarrie
Menções Honrosas: todos os outros filmes da série lançados nessa década: GHOST PROTOCOL (2011), de Brad Bird e ROGUE NATION (2015), de Christopher McQuarrie

EEwcb6qXYAAdgzFAVENGEMENT (2019), de Jesse V. Johnson
PS: Encontra-se disponível na Netflix com o título IMPLACÁVEL

GLOBO DE OURO 2020

Saíram os indicados para a premiação do Globo de Ouro 2020. E a seleção até que tá interessante. Pena que o De Niro não foi indicado a melhor ator, mas vou ficar na torcida para que O IRLANDÊS leve o máximo de prêmios que conseguir… Nas categorias de cinema que me interessam, ficou assim:

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MELHOR FILME – DRAMA
1917, de Sam Mendes
CORINGA (Joker), de Todd Phillips
DOIS PAPAS (The Two Popes), de Fernando Meirelles
HISTÓRIA DE UM CASAMENTO (Marriage Story), de Noah Baumbach
O IRLANDÊS (The Irishman), de Martin Scorsese

MELHOR FILME – COMÉDIA/MUSICAL
ENTRE FACAS E SEGREDOS (Knives Out), de Ryan Johnson
ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD (Once Upon a Time in Hollywood), de Quentin Tarantino
JOJO RABBIT, de Taika Waititi
MEU NOME É DOLEMITE (Dolemite is my Name), de Craig Brewer
ROCKETMAN, Dexter Fletcher

MELHOR FILME – ESTRANGEIRO
DOR E GLÓRIA (Dolor y gloria), Pedro Almodovar (ESPANHA/FRANÇA)
OS MISERÁVEIS (Les Misérables), de Ladj Ly (FRANÇA)
PARASITA (Gisaengchung), de Bong Joon Ho (CORÉIA DO SUL)
RETRATO DE UMA JOVEM EM CHAMAS (Portrait de la jeune fille en feu), de Céline Sciamma (FRANÇA/ITÁLIA)
THE FAREWELL, de Lulu Wang (CHINA)

MCDMAST_ZX009MELHOR ATOR – DRAMA
Adam Driver, HISTÓRIA DE UM CASAMENTO
Antonio Banderas, DOR E GLÓRIA
Christian Bale, FORD VS FERRARI 
Joaquin Phoenix, CORINGA
Jonathan Pryce, DOIS PAPAS

MELHOR ATRIZ – DRAMA
Charlize Theron O ESCÂNDALO
Cynthia Erivo, HARRIET
Renée Zellweger, JUDY: MUITO ALÉM DO ARCO-ÍRIS
Saoirse Ronan, ADORÁVEIS MULHERES
Scarlett Johansson, HISTÓRIA DE UM CASAMENTO

MELHOR ATOR – COMÉDIA/MUSICAL
Daniel Craig, ENTRE FACAS E SEGREDOS
Eddie Murphy, MEU NOME É DOLEMITE
Leonardo DiCaprio, ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD
Roman Griffin Davis, JOJO RABBIT
Taron Egerton, ROCKETMAN

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Ana de Armas, ENTRE FACAS E SEGREDOS
Awkwafina, THE FAREWELL
Beanie Feldstein, FORA DE SÉRIE
Cate Blanchett, CADÊ VOCÊ, BERNADETTE?
Emma Thompson TALK SHOW – REINVENTANDO A COMÉDIA

ATOR COADJUVANTE
Al Pacino, O IRLANDÊS
Anthony Hopkins, DOIS PAPAS
Brad Pitt, ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD
Joe Pesci, O IRLANDÊS
Tom Hanks, UM LINDO DIA NA VIZINHANÇA

ATRIZ COADJUVANTE
Annette Bening, O RELATÓRIO
Jennifer Lopez, AS GOLPISTAS
Kathy Bates, O CASO RICHARD JEWELL
Laura Dern, HISTÓRIA DE UM CASAMENTO
Margot Robbie, O ESCÂNDALO

bts-parasite-bong-joon-ho-interview-2MELHOR DIRETOR
Bong Joon Ho, PARASITA
Martin Scorsese, O IRLANDÊS
Quentin Tarantino, ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD
Sam Mendes, 1917
Todd Phillips, CORINGA

MELHOR ROTEIRO
DOIS PAPAS
ERA UMA VEZ EM HOLLYWOOD
HISTÓRIA DE UM CASAMENTO
O IRLANDÊS
PARASITA

O IRLANDÊS (The Irishman, 2019)

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Sei que muita gente torce o nariz pelo velho Scorsese pós-2000, com essa ideia de que ele não é mais o mesmo, que seu talento diminuiu, seus filmes pioraram, blá, blá, blá… Pra mim sempre foi um deleite todas as vezes em que parei para assistir a um novo filme do homem nas últimas duas décadas. Mas realmente há muito tempo que um filme dele não alcançava de modo tão expressivo as suas ambições como o faz O IRLANDÊS. É o ápice, um desses monumentos que vez ou outra nos aparece, cada vez mais raro, e que traz uma sensação de PURO CINEMA (apesar da ironia de ter sido produzido pela Netflix). Um filme para mostrar ao mundo um autor que ainda está pulsando, que ainda pode nos maravilhar.

E uma das principais maravilhas do filme vem na forma do testemunho representado por vários dos melhores atores da história. Robert De Niro, Al Pacino, Harvey Keitel, Joe Pesci, que foi literalmente retirado da aposentadoria voluntária para dar vida a um dos grandes papéis de sua carreira. E é fascinante perceber como o tempo passou pra esses sujeitos, agora com as caras enrugadas, velhos, frágeis, que no fim das contas é o próprio assunto d’O IRLANDÊS. O tempo que passa, as coisas pelas quais rememoramos da vida, envelhecer… Um épico que reflete as diferentes passagens da vida e o destino inevitável que nos espera. Para alguns, no entanto, por sorte ou azar, há tempo suficiente para refletir sobre o passado e as escolhas realizadas.

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Frank Sheeran (De Niro), o irlandês do título, é um desses exemplos. É o único que restou. Velho, doente, numa casa de repouso, ninguém acreditaria que fora um dia um dos maiores assassinos que trabalhou para a máfia italiana. Mas ele conta sua história, a partir da década de 1950 e vai se estendendo por mais de 40 anos. Um veterano de guerra que virou motorista de caminhão, se envolve com Russell Bufalino (Pesci) e sua família criminosa na Pensilvânia, sobe na vida para se tornar um homem de respeito, mesmo ao custo de perder o amor de sua esposa e filhas. Eventualmente, ele vai trabalhar para Jimmy Hoffa (Al Pacino), o lendário presidente do sindicato dos caminhoneiros, que na época era um dos homens mais poderosos da América. E cujo desaparecimento permanece um completo mistério, embora o filme tente trazer alguma luz para o assunto baseando-se nos relatos do próprio Sheeran (publicado no magnífico livro I Heard You Paint Houses, de Charles Brandt), mas que não são efetivamente comprovados e talvez nunca saibamos a verdade dos fatos.

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Superficialmente, temos então Scorsese voltando ao chamado “filme de máfia” pelo qual é bastante celebrado por obras como OS BONS COMPANHEIROS e CASSINO. E O IRLANDÊS é mais um olhar definitivo e abrangente sobre esse estilo de vida marcado por crimes, violência, mas também a busca por dinheiro fácil e consagração. No caso de Sheeran é uma vida melancólica. Uma vida definida pela passividade e pela constante subserviência aos seus superiores e à falha como pai, como “chefe de família”. Um vazio personificado melhor pelo papel quase simbólico da filha, que envolve pouco mais que uma participação especial de Anna Paquin, mas que não deixa de ser uma performance crucial para o estudo sobre o personagem.

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Há uma infinidade de coisas para analisar e refletir em O IRLÂNDES… Os aspectos históricos por exemplo são curiosos, como a política da época e a corrupção criminal se confundem, ou caminham juntas (invasão da Baía dos Porcos em Cuba, o assassinato de Kennedy, etc…). Mas as questões intimistas me fascinam mais. A ideia de examinar homens violentos que são levados a um apocalipse interno, a melancolia do envelhecimento, a morte, as pessoas descartadas no caminho… Vi o filme duas vezes e até agora não cansei de pensar nessas questões…

Sobre CGI e tecnologias de rejuvenescimento, caguei. Pouco me importa se ficou tosco ou se agora já dá pra fazer um filme com o James Dean… Estava tão imerso na história que não me dei o trabalho de ficar reparando nesses detalhes. Importa pra mim é a aula de cinema de Scorsese, que dirige como o mestre que é, com a sabedoria de quem possui uma carreira repleta de várias obras-primas. Consegue alternar momentos engraçadíssimos com sequências assustadoras e sombrias. Três horas e meia de ritmo e de uma certa energia do diretor. Lento, claro, para quem não está acostumado, mas nunca chato. E sempre se movendo com altos e baixos emocionais como uma montanha russa, à medida em que o glamour e o humor vão gradativamente combinando com a realidade violenta e sombria.

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E são vários os momentos que já nasceram clássicos. Angelo Bruno (Keitel) e Russell repreendendo Sheeran no restaurante; a preparação de Sheeran para matar Joe Gallo; o encontro de Hoffa com Tony Pro na prisão; a festa de homenagem à Sheeran; são dezenas e dezenas de momentos memoráveis. E a última hora… Meu Deus… Só essa última hora de O IRLANDÊS já seria suficiente para uma obra-prima. Mas eu queria destacar mesmo toda a sequência que se inicia com a viagem de Sheeran para “encontrar” Hoffa. Fazer o que tem que fazer. Aquele suspense dramático pra cacete… BANG BANG, dois tiros na cabeça, mais um trabalho rotineiro. E a viagem de volta num silêncio sepulcral arrasador. Momentos dignos de antologia. Das melhores coisas que Scorsese já filmou na vida.

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Aliás, todos os assassinatos de Sheeran são filmados mais ou menos do mesmo modo. Com um certo distanciamento, o enquadramento pegando os atores de corpo inteiro, e o modus operandi de Sheeran geralmente é o mesmo: aproximação objetiva, dois tiros rápidos na cabeça, discreto, e a vítima não tem tempo nem de tirar as mãos do bolso. E Scorsese em nenhum momento faz dessas cenas um espetáculo. E da mesma maneira acontece com Hoffa. Muda o contexto dramático e isso basta para a cena de seu assassinato ser tão poderosa, tão devastadora. Mesmo mostrada de forma tão rápida e direta. Hoffa foi um amigo abstraído para um objetivo. Uma traição transformada em trabalho. Que filme monumental!

Importa também pra mim De Niro, Pacino e Pesci, três gigantes que agora acrescentam outras performances icônicas à história deles. E aquela última hora de filme… Meu Deus… A última hora de filme é de rasgar o coração.

Cahiers du Cinéma: Top 10 filmes da década 2010-2019

Enquanto não finalizo a minha lista dos melhores filmes da década, vou colocar aqui um top 10 dos melhores “filmes” dos últimos dez anos (“filmes” entre aspas mesmo, porque tem séries na relação…) que a famosa revista francesa Cahiers du Cinema publicou esta semana.

OkpEW910. O ESTRANHO CASO DE ANGÉLICA (2010), Manoel de Oliveira

bvf1Tc09. UNDER THE SKIN (2013), Jonathan Glazer

qdttbx08. MELANCHOLIA (2011), Lars Von Trier

captura-2018-10-11-12h04m35s15007. MIA MADRE (2015), Nanni Moretti

2_zps1ytfmrdy06. TONI ERDMANN (2016), Maren Ade

b4187705. LE LIVRE D’IMAGE (2018), Jean-Luc Godard

CBtFIB04. TIO BOONMEE, QUE PODE RECORDAR SUAS VIDAS PASSADAS (2010), Apichatpong Weerasethakul

tumblr_nfawo7pRqi1s9q35fo10_128003. P’TIT QUINQUIN (2014), Bruno Dumont

img94_557_5354917402. HOLY MOTORS (2012), Leos Carax

Ortrtmp01. TWIN PEAKS: THE RETURN (2017), David Lynch

O TRAIDOR (Il Traditore, 2019)

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Ok, sei que vai ser impossível não fazer piada com o nome do sujeito, mas vamos tentar… Até porque vou ter que citá-lo várias vezes por aqui. Mas Tommaso Buscetta foi o primeiro pentito, um arrependido da Cosa Nostra, que ajudou a justiça italiana na luta contra a máfia, especialmente contra o império do sanguinário Salvatore Riina. Buscetta, desiludido após a traição de um capo, e enfrentando prisão e risco de vida, trabalha com o juiz Falcone fornecendo informações sobre o funcionamento da Cosa Nostra nos anos 80. E é esse, bem por alto, o mote de O TRAIDOR, novo filme do italiano Marco Bellocchio, um dos grandes mestres do cinema ainda em atividade.

Na longa e interminável história da máfia italiana (da qual as séries GOMORRA e SUBURRA são hoje o eco contemporâneo), a traição de Buscetta e o julgamento que se seguiu por quase dois anos foi um marco. Centenas de mafiosos foram condenados nos anos 80 e 90 por causa do Buscetta… Como todo mundo sabe, Buscetta é bom, mas para alguns é motivo de prisão e morte… er… Ok, já parei.

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Bom, Marco Bellocchio se interessa bastante na jornada do protagonista ao longo desse período, desde sua fuga para o Brasil (quando a gangue de Riina estava começando o derramamento de sangue) até sua prisão (seguida de torturas e tentativa de suicídio) e depois a extradição à Itália com sua decisão de colaborar com o sistema de justiça e ganhar uma nova vida nos Estados Unidos com sua família, cuja esposa era brasileira e em O TRAIDOR é interpretada pela Maria Fernanda Cândido. Chama a atenção o fato de Buscetta nunca se considerar um traidor, mas de ter sido traído, por vários motivos, pela Cosa Nostra, o que dá ao personagem uma complexidade de herói assombrado por certo espírito de justiça, ainda que seja difícil de enxergar quando se trata de alguém que passou a vida como um “soldado” na máfia…

Uma grande parte do filme é dedicada aos julgamentos, aos tribunais que se transformam em um teatro de bufonaria, onde a máfia se coloca como vítimas em confrontos verbais que oscilam entre retaliação, lamento e ridículo. Se não houvesse tantas mortes por trás de todo esse circo poderíamos até rir, mas a triste visão desses assassinos prontos para qualquer coisa (fingir demência, costurar a boca, mostrar o pau) para economizar tempo e tentar se safar demonstra o cinismo e frieza dignos de psicopatas. As travessuras dos gangsters presos lembram bastante algumas cenas de DIAVOLO IN CORPO, que Bellocchio realizou em 1986, e que representava julgamentos de estudantes ativistas. Já comentei sobre esse filme aqui.

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Bem distante da tradição mítica dos filmes de Mafia (como O PODEROSO CHEFÃO), O TRAIDOR parece mais um filme ensaio com inclinações documentais. Bellocchio faz um trabalho denso e didático, que raramente excede seu status de “arquivo”, com direito a nomes, número de mortes, informações e fatos expostos na tela em detrimento de emoções, mas que confere um realismo quase palpável para tratar desse lado sombrio e silencioso da Itália. Mesmo as várias sequências de assassinatos são frequentemente vistas com uma crueza de gelar a espinha. A exceção talvez seja no plano filmado de dentro de um carro que é arremessado pelos ares numa explosão. Desses momentos que prova a maestria de um veterano como Bellocchio. E quando há emoções, é especialmente no rosto maciço de Pierfrancesco Favino, formidável na pele de Buscetta, um retrato ao mesmo tempo frágil e determinado, que é um dentre tantos motivos de fascínio por O TRAIDOR. Sem dúvida mais um pra lista “melhores de 2019”.

FOI DEUS QUE MANDOU (1975)

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FOI DEUS QUE MANDOU (God Told Me To) poderia ter sido o que O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA foi para Tobe Hooper, ou o que HALLOWEEN foi pro Carpenter. Produções relativamente pobres que renderam muito mais que o esperado. Infelizmente Larry Cohen não teve a mesma sorte. Até que é um filme bem realizado, cheio de idéias e reflexões filosóficas que transcende gêneros, que dialoga e propõe um olhar social. É uma pena, portanto, que tenha sido condenado ao limbo, onde só mesmo interessados por cinema grind house e produções de baixo orçamento de gênero têm o devido contato.

A abordagem de Cohen aqui é de um pessimismo quase poético. Em seu nível superficial, FOI DEUS QUE MANDOU é uma história de investigação policial, que se passa em Nova York. O filme começa com um atirador, empoleirado em uma torre de água no alto de um prédio, usando pessoas aleatórias nas ruas como alvo. Cohen filma com uma câmera na mão, no meio da multidão, num estilo seco e documental de fazer um Cassavetes se encher de orgulho, enquanto os tiros ecoam entre os prédios e os corpos começam a se acumular.

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Tony LoBianco (OPERAÇÃO FRANÇA) é o detetive Peter Nichols, que sobe a torre para confrontar o atirador e obtém uma resposta ao caos sofrido por esse homem. Quando perguntado a razão dele estar atirando nas pessoas, e antes de mergulhar em sua morte suicida, o atirador diz ao detetive que Deus lhe disse para fazê-lo. Um olhar desesperado atravessa o rosto de Nichols. As palavras “foi Deus que mandou” são poderosas o suficiente para afastá-lo de sua complacência e abrir o seu tormento psicológico há tanto tempo reprimido. Talvez palavras poderosas o suficiente para sacudir sua perda de crença religiosa e se tornar um ímpeto para a autodescoberta.

Em relação à religião, FOI DEUS QUE MANDOU não é uma jornada cheia de redenção ao estilo do que Martin Scorsese fazia na época. A cidade de Cohen em Nova York é tão suja e decadente quanto em CAMINHOS PERIGOSOS e TAXI DRIVER, mas Cohen não oferece a oportunidade para o resgate de Nichols como Scorsese faz com seus personagens. Para Travis Bickle (Robert De Niro em TAXI DRIVER), a redenção vem através de uma jornada de escuridão neurótica e uma explosão de violência. Já Cohen resolve impor à Nichols uma excursão às trevas do misticismo ou infiltração alienígena, mas cujo resultado não deixa de ser perturbador em sua abordagem à falibilidade humana e à perda da conexão com Deus.

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Nichols, em certo sentido, segue os passos de Travis Bickle, mas Cohen também se recusa a aceitar a realidade como base para sua história. Onde Travis sai do controle em um pano de fundo real, Cohen intercala o deslizamento de Nichols com o fantástico. O mistério para Nichols não é apenas descobrir quem está por trás dessa série de assassinatos realizados por pessoas que o fazem “à mando de Deus”, mas uma jornada existencial de autodescoberta. Os assassinatos são um catalisador para Nichols descobrir onde ele próprio se insere nessa trama. Todas as mortes levam à ele, que por sua vez levam a um homem chamado Bernard Philips (Richard Lynch), que se diz Deus, mas que acaba por ser uma espécie de mistura reencarnada de Cristo e do Diabo.

O discurso apocalíptico de Philips de alguma forma leva Nichols para sua mãe, que está em uma casa de repouso. Ao que parece, ela foi sequestrada por alienígenas quando era jovem e algum tempo depois concebeu Nichols, embora fosse virgem na época. Isto, naturalmente, alude à Virgem Maria e ao nascimento de Jesus Cristo. No universo de Cohen, não é despropositado fazer essas conexões.

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FOI DEUS QUE MANDOU funciona bem como complemento para outros trabalhos talvez mais conhecidos de Larry Cohen, como I’TS ALIVE (74) e Q (82). Todos os três filmes são visões apocalípticas que evidenciam a ira de Deus em resposta às desilusões da estrutura familiar (IT’S ALIVE), um Deus que envia uma serpente alada contra a humanidade (Q) e, no mais emblemático, FOI DEUS QUE MANDOU, acentua a incapacidade do homem de discernir o poder de Deus, especialmente o do antigo testamento, vingativo, que usa o homem como peão para sua própria destruição.

BLU-RAY REVIEW: VÁ E VEJA (1985); CPC UMES FILMES

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VÁ E VEJA (Idi i Smotri) acabou de sair do forno, agora em novembro, numa versão em Blu-Ray pela CPC UMES Filmes. A distribuidora já havia lançado o filme em DVD há alguns anos, numa belíssima edição, mas agora é possível sentir o poder devastador de VÁ E VEJA em alta definição. É provável que essa obra-prima perturbadora do diretor Elem Klimov seja o filme de guerra – ou anti-guerra – mais expressivo já feito. Acima de tudo, é um olhar que combina imagens surreais com uma enxurrada ininterrupta de barbárie, que mostra o pior lado que a natureza humana tem a oferecer.

Na trama, seguimos as andanças de Florya (Aleksei Kravchenko), um adolescente que quer se juntar à frota de resistência anti-nazista em 1944 na Bielorrússia e acaba sendo testemunha de todo tipo de atrocidade que uma guerra pode proporcionar. Na primeira hora, no entanto, VÁ E VEJA é um filme onírico, à beira do surrealismo, a maior parte do tempo se passa numa floresta filmada como um mundo paralelo, onde o jovem Florya emerge ainda ingênuo e inocente dessa visão da natureza. Existe até uma certa dose de humor na energia desse garoto, sempre pronto para lutar. Mas acaba deixado para trás quando as tropas partem para o combate.

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Gradualmente, VÁ E VEJA vai descendo às profundezas. A menina que acompanha Florya percebe de relance um amontoado de cadáveres fuzilados e ocultos da vista de Florya; fazem a travessia de um lamaçal que definitivamente enterrará a ingenuidade do garoto, mergulhando-o em outra realidade; vem à seguir a cena da vaca (na qual munições reais foram utilizadas e que passavam a dez centímetros da cabeça do ator). E finalmente, estamos mergulhados no inferno total. A segunda parte de VÁ E VEJA é uma jornada exaustiva, radical, quase sem diálogos, que nega o tipo de delírio visual da primeira parte: Flyora será confrontado com a crueldade humana, testemunha de várias abominações, incluindo o massacre de homens, mulheres e crianças.

Em nenhum momento Klimov apela para uma violência gráfica na tela, mas a encenação e as imagens que surgem a partir daí são brutais. E Flyora se afunda cada vez mais num estado de letargia e descrença do mundo que se decompõe diante dos olhos. (enfatizados pelos closes expressionistas em seu rosto devastado e agora envelhecido).

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Não é tarefa das mais fáceis colocar em palavras o nível de tensão que VÁ E VEJA proporciona em seu ápice. E o choque vem tanto das situações que o filme mostra como também pelo trabalho formal de Klimov, quase uma anomalia artística que surge num filme cheio de momentos pesados e aterradores. Mise en scène, direção dos atores (magníficos, frequentemente atuando com os olhos voltados diretamente para a câmera), o uso da música, a criação de uma atmosfera angustiante, tudo incrível… E deve ter sido desses trabalhos extremamente difíceis emocionalmente de elaborar, realizar, decupar… Acabou sendo o último filme do diretor, que morreu em 2003.

Truffaut é habitualmente citado (Roger Ebert, por exemplo) dizendo que não seria possível fazer um filme “anti-guerra”, porque a energia e senso de aventura acabam fazendo as batalhas parecerem divertidas. Não sei se acredito que Truffaut tenha dito isso exatamente com esse significado, mas caso seja verdade, se tivesse vivido mais um pouquinho para ver VÁ E VEJA, é bem provável que mudasse de opinião. Até porque o filme não se concentra no campo de batalha, tem mais intenção de retratar a vida de pessoas comuns confrontadas pela guerra. Só que o faz com uma maestria, brutalidade e intensidade rara. Uma obra perfeita em todos os sentidos.

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Embora VÁ E VEJA tenha ganhado popularidade nas últimas décadas, não dá pra deixar de mencionar também o filme A ASCENÇÃO (77), que comentei aqui recentemente, outro filme de guerra soviético essencial, dirigido por Larisa Shapitko – que era esposa Klimov, falecida em 79. É uma obra-prima que merece ser redescoberta. Foi lançado em DVD pela A CPC UMES filmes há poucos meses. Agora, VÁ E VEJA chega ao Brasil em outro patamar e pode ser contemplado em alta resolução, em Blu-Ray. Já se encontra disponível nas melhores lojas do ramo, livrarias e na loja virtual da distribuidora.

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6ª Edição da MOSTRA MOSFILM

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Mostra Mosfilm chega à 6ª Edição com 29 sessões e dois locais de exibição

De 4 a 11 de dezembro São Paulo receberá 12 longas metragens do cinema soviético e russo. As produções, de períodos e estilos variados, fazem parte da programação da Mostra Mosfilm, que chega à sua 6ª edição com 29 sessões, doze a mais que no ano passado, e dois parceiros à altura da programação: o Circuito SPCine e o Itaú Cinemas.

Produções de várias décadas serão exibidas nos 8 dias de mostra, e a diversidade de gêneros também chama a atenção na curadoria. Entre os destaques da programação estão A BALADA DO SOLDADO, clássico de Grigori Chukhray, a ficção científica STALKER, de Andrei Tarkovsky, e A PRISIONEIRA DO CÁUCASO, de Leonid Gayday, uma das mais populares comédias russas de todos os tempos. Os três filmes passaram, recentemente, por cuidadosos processos de restauração no Mosfilm, o que também aconteceu com mais 5 dos 12 filmes da Mostra.

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STALKER, de Andrei Tarkovsky

Outra novidade é a exibição de um balé, a versão de “Spartacus” de Yury Grigorovich, de 1975, com o Balé Bolshoi. Karen Shakhnazarov, diretor geral do Mosfilm, também tem filme na programação deste ano, o drama O MENSAGEIRO, de 1986. O filme mais recente da seleção é a comédia ALUGA-SE UMA CASA COM TODOS OS INCOVENIENTES, de Vera Storozheva, de 2016.

A possibilidade de ter dois locais de exibição viabilizou maior número de sessões, e também mais possibilidades de o público conferir os filmes, quase todos inéditos no Brasil. Todos os longas terão ao menos duas exibições, sendo pelo menos uma no Itaú (Rua Augusta, 1.475) e uma no SPCine Olido (Av. São João, 473). Os ingressos têm preços populares e as sessões têm 5 horários diversos.

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O MENSAGEIRO, de Karen Shakhnazarov

A Mostra é uma realização do CPC-UMES Filmes, em parceria com a SPCine e Itaú Cinemas.

Apoio: Agência de Assuntos da Comunidade dos Estados Independentes da Federação da Rússia (Rossotrudnichestvo), Embaixada da Federação da Rússia na República Federativa do Brasil, Sputnik Cultural e Associação Cultural Grupo Volga de Folclore Russo.

Informações Gerais:
6ª Mostra Mosfilm de Cinema Soviético e Russo
De 04/12* a 11/12/19

Locais de exibição:
Itaú Cinemas Augusta
Rua Augusta, 1.475, sala 3 – Consolação – São Paulo – SP
Ingressos: R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia entrada)

Circuito SPCine – Cine Olido
Av. São João, 473, Centro – São Paulo – SP
Ingressos: R$ 4,00 (inteira) e R$ 2,00 (meia entrada)

Programação

DIAS E HORÁRIOS DAS SESSÕES

Filme: A Balada do Soldado
04/12* – Itaú Augusta – Sala 1 – 21h
07/12 – SPCine Olido – 17h
08/12 – Itaú Augusta – Sala 3 – 19h
*Sessão de abertura, gratuita. É necessário confirmar presença pelo e-mail mostramosfilm@umes.org.br.
Retirada de ingressos com 1 hora de antecedência. Sujeito a lotação da sala.

Filme: Volga-Volga
08/12 – SPCine Olido – 19h
10/12 – Itaú Augusta – Sala 3 – 19h

Filme: Amigos Verdadeiros
05/12 – Itaú Augusta – Sala 3 – 21h
08/12 – SPCine Olido – 17h
09/12 – Itaú Augusta – Sala 3 – 19h

Filme: O Comunista
06/12 – SPCine Olido – 15h
11/12 – Itaú Augusta – Sala 3 – 19h

Filme: Eles Lutaram Pela Pátria
05/12 – SPCine Olido – 19h
07/12 – Itaú Augusta – Sala 3 – 21h
11/12 – Itaú Augusta – Sala 3 – 21h

Filme: A Flor de Pedra
07/12 – SPCine Olido – 15h
08/12 – Itaú Augusta – Sala 3 – 16h30m

Filme: Spartacus
05/12 – SPCine Olido – 15h
09/12 – Itaú Augusta – Sala 3 – 21h

Filme: A Prisioneira do Cáucaso
06/12 – Itaú Augusta – Sala 3 – 19h
08/12 – SPCine Olido – 15h
10/12 – Itaú Anexo – Sala 4 – 21h

Filme: Rapaziada!
05/12 – SPCine Olido – 17h
07/12 – Itaú Augusta – Sala 3 – 16h30m

Filme: O Mensageiro
05/12 – Itaú Augusta – Sala 3 – 19h
06/12 – SPCine Olido – 17h

Filme: Stalker
06/12 – Itaú Augusta – Sala 3 – 21h
07/12 – SPCine Olido – 19h
08/12 – Itaú Augusta – Sala 3 – 21h

Filme: Aluga-se uma Casa com Todos os Inconvenientes
06/12 – SPCine Olido – 19h
07/12 – Itaú Augusta – Sala 3 – 19h

Exposição “As Matryoskhas”, por Nadia Ramirez Starikoff

Dos dias 05/12 a 08/12 estará em cartaz, no hall de entrada do SPCine Olido, a exposição “As Matryoskhas”, de Nadia Ramirez Starikoff. Filha de mãe russa, a artista tem sua trajetória marcada pela migração. Inspiradas nas bonecas de origem russa, as obras retratam as origens ancestrais, a materialidade do corpo, as conexões com o outro, as relações com o ambiente e, por fim, a relação com o universo em sua mais infinita amplitude.

Comidas, bebidas e artesanato típico do Leste Europeu

Um pedacinho da tradicional Feira do Leste Europeu estará na Galeria Olido no sábado, 07/12, com barracas de comidas, bebidas e artesanato típicos da região. A Feira do Leste Europeu acontece mensalmente na Vila Zelina, bairro que concentra o maior número de imigrantes de países do Leste Europeu em São Paulo.
Sábado, 07/12/2019
Horário: das 13h às 20h
SPCine Olido (Av. São João, 473)

O IRLANDÊS

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Na verdade, fui assistir logo que estreou, já na última quinta-feira. Ainda não consegui parar para elaborar um texto maior aqui pro blog, mas desde então não consegui parar de pensar em THE IRISHMAN, o que de certa forma é bom porque não quero parar de pensar no filme ainda… Scorsese nunca foi tão pesado, sombrio. Um épico íntimo e melancólico. Saí do cinema como se sai de um funeral. Obra-prima.

A CASA DO DRÁCULA (1945)

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Mais um adendo à peregrinação dos filmes de Frankenstein da Universal que tenho feito aqui no blog. Depois de A CASA DE FRANKENSTEIN, o monstro retorna agora, ainda que minimamente, em A CASA DO DRÁCULA (House of Dracula).

Descrever a trama deste aqui é um exercício praticamente inútil, especialmente se você tem acompanhado as postagens recentes sobre o tema… A fórmula é basicamente a mesma dos últimos filmes, os personagens também são exatamente os mesmos – Drácula, monstro de Frankenstein, Talbott/Lobisomem – Os mesmos temas… Enfim, e existe ainda o risco de começarmos a procurar coisas que façam sentido nessas bagunças que misturam monstros, mas será tudo em vão. De qualquer maneira, vamos lá…

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O personagem que vai conduzir o fio desta vez, em A CASA DO DRÁCULA, é o Dr. Franz Edelmann (Onslow Stevens), um médico idealista, especializado, aparentemente, no tratamento de monstros, já que sua sala de espera está cheia de vampiros, lobisomens e o Monstro… Na verdade, a trama começa quando o Conde Drácula (John Carradine) aparece. Ao que tudo indica, o vampirão está entediado com a vida eterna e quer se tornar um humano normal. E o Dr. Edelmann tem um tratamento revolucionário para isso, que envolve transfusão de sangue e algo a ver com glândulas, cirurgia craniana e, bom, não vale a pena se apegar nesses detalhes…

Larry Talbott, o Lobisomem, novamente encarnado por Lon Chaney Jr., também aparece por aqui com seu eterno desejo de morrer. Como as coisas não correm bem, o sujeito tenta tirar a vida se jogando de um penhasco. Felizmente, há uma caverna subterrânea na qual Larry acaba indo parar. O médico o resgata, e quem eles encontram soterrado no local? Claro… O Monstro de Frankenstein. Eu sei que isso vai ser difícil de acreditar, mas a partir daqui o enredo consegue ficar ainda mais bizarro. Cenas de transfusões de sangue com o Drácula, tentativas de reviver o monstro de Frankenstein, assassinatos misteriosos e, claro, a multidão de aldeões portadores de tocha empenhados em destruir tudo. Como vimos em todos os filmes anteriores…

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Lon Chaney Jr. repetindo a mesma performance como Larry Talbott/Lobisomem já deu, né? O sujeito até tenta dar alguma dignidade à sua atuação, mas é uma causa perdida a essa altura. John Carradine prova ser o Drácula mais chato da história. As únicas duas atuações que merecem destaque são a de Onslow Stevens como Dr. Edelmann, com uma pegada meio “O Médico e o Monstro”, e Jane Adams, que faz a enfermeira assistente do doutor e que, para não perder o costume, é corcunda.

De resto, não há uma construção muito boa de suspense ou mistério. Na verdade, a impressão que dá é de desespero da Universal em manter sua audiência interessada em filmes de monstro, realizando qualquer porcaria pra ver se dava certo… E olha que eles nem tinham feito ainda ABBOTT E COSTELLO CONTRA FRANKENSTEIN. Mas apesar da bobagem, eu até gosto deste, me divirto com a dupla de comediantes se metendo em confusão com os ícones do horror. Já A CASA DO DRÁCULA, é só um desperdício de celuloide…

A CASA DE FRANKENSTEIN (1944)

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A CASA DE FRANKENSTEIN (House of Frankenstein), lançado um ano depois de FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM, foi um dos infames (mas comercialmente bem-sucedido) filmes de crossover de monstros da Universal. Aqui temos Drácula, Lobisomem e o Monstro de Frankenstein, embora talvez curiosamente seus papéis não sejam realmente centrais. Não é lá um filme muito bom, mas tem seus momentos e é estranhamente agradável de se assistir. Até porque possui uma variedade formidável de ícones do horror do período em seu elenco: Boris Karloff retornando à serie, John Carradine, Lon Chaney Jr e J. Carrol Naish.

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Na trama, o Dr. Gustav Niemann (Boris Karloff) continua o trabalho do famoso Dr. Frankenstein e, como resultado, agora está apodrecendo na prisão. Ele ainda sonha em retomar o trabalho, mas parece improvável que seja capaz de fazê-lo encarcerado. Então o destino intervém – a prisão é atingida por um vendaval que destrói os seus muros, permitindo que Niemann e um outro prisioneiro, o corcunda Daniel (J. Carrol Naish), escapem.

Agora, Niemann pode voltar às suas experiências. Mas há duas tarefas que ele precisa realizar primeiro: encontrar os cadernos do Dr. Frankenstein e se vingar dos homens cujo testemunho o colocou na prisão. Então, com Daniel como seu fiel assistente, ele tem uma série de atividades ambiciosas para colocar em prática. E a partir daqui o filme vira uma bagunça de monstros surgindo pra todo lado…

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Na fuga, um encontro casual com um show itinerante da Câmara dos Horrores dirigido por um tal professor Lampini (George Zucco) oferece a Niemann a oportunidade útil de disfarce perfeito, permitindo que viaje pelos campos sem ser reconhecido ou atraindo suspeita. Uma das exposições de Lampini é o esqueleto de Drácula. É claro que ninguém acredita que é o esqueleto do famoso vampiro, mas quando Niemann remove a estaca do esqueleto, descobre que é realmente o Conde Drácula, que volta à vida.

Encerrado o arco com o Drácula, Niemann está ansioso para voltar ao seu laboratório, especialmente depois de encontrar não apenas os preciosos cadernos do Dr. Frankenstein, mas também os corpos congelados do Lobisomem e do Monstro de Frankenstein. O cientista tem um interesse particular em transplantes de cérebro e agora ele tem muitos cérebros e muitos corpos para brincar. E obviamente, como se trata de um filme horror, você não pode sair por aí ressuscitando mortos e transplantando cérebros de monstros sem que algo dê errado. E nesse caso, o que dá errado é um trágico triângulo amoroso entre o corcunda, o lobisomem e uma cigana…

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Talvez o grande problema de A CASA DE FRANKENSTEIN seja justamente essa combinação desnecessária de vários monstros… Quero dizer, claro que eu adoro a ideia de juntar esses ícones do horror num mesmo filme, mas que seja de uma maneira bem pensada. Por aqui, a trama do Dr. Niemann com seu fiel ajudante, o corcunda Daniel, já tinha material suficiente para um grande filme. Mas resolveram entuchar de monstros sem exatamente uma conexão lógica com o enredo.

O roteiro de Edward T. Lowe Jr (baseado na história de Curt Siodmak) não consegue resolver essa dificuldade. O trecho de Drácula, por exemplo, acaba sendo como um curta-metragem dentro do filme. A história do Lobisomem apaga totalmente a presença do Monstro de Frankenstein, que acaba desempenhando apenas um papel insignificante no final. Como disse, o principal foco da trama é a história da obsessão de Niemann por superar as conquistas de Frankenstein, combinada com os trágicos envolvimentos românticos causados ​​pela chegada da bela cigana Ilonka (Elena Verdugo) no pobre corcunda Daniel. E isso bastava.

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Se os vários aspectos da trama nunca se juntam com muito sucesso, é preciso destacar pelo menos que o filme é tecnicamente bem executado. O diretor Erle C. Kenton mantém um ritmo frenético e oferece muitas emoções ao longo dessa bagunça. Alguns toques visuais são bem interessante (como a cena do assassinato do morcego-vampiro visto apenas em silhueta). A Universal sempre teve a proeza de conseguir fazer com que seus filmes de terror menores, sem grandes orçamentos, parecessem produções mais ricas e aqui não é exceção. Os cenários são impressionantes, especialmente a caverna de gelo onde Frankenstein e Lobisomem são encontrados. As cenas de transformação de monstros são bem feitas, especialmente a do Drácula que vai do estágio de esqueleto até chegar a um vampiro de carne e osso.

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E as atuações, como sempre, variam de boas à excelentes. O desempenho de Karloff é interessante, com seu Dr. Niemann sempre afável, falado em voz baixa e até gentilmente, mas basta alguém se colocar em seu caminho e ele os descarta com crueldade de tirar o fôlego. É como se ele estivesse tão obcecado por seu trabalho que matar é apenas uma pequena irritação. Só é meio estranho vê-lo de volta à série sendo que ele fora o primeiro monstro de Frankenstein, nos três filmes maids marcantes. Portanto é meio bizarro vê-lo contracenando com o monstro (desta vez interpretado por Glenn Strange, que se tornaria oficialmente o monstro nos filmes seguintes produzidos pela Universal).

Lon Chaney Jr. poderia ter interpretado Larry Talbott/Lobisomem até de olhos fechados a essa altura, mas ele adiciona seus toques característicos de pathos, a tragédia, a vontade morrer, o que é sempre bom de ver. John Carradine é um Drácula sinistro e eficaz, uma pena que aparece tão pouco, mas no filme seguinte, A MANSÃO DE DRÁCULA, ele retorna ao personagem. J. Carrol Naish é quem acaba se destacando por aqui como o corcunda Daniel, um assassino de sangue frio, um fiel ajudante e uma vítima de um amor que deu errado.

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A CASA DE FRANKENSTEIN pode até ser desconjuntado, é um pouco mais do que um amontoado de idéias não muito originais e de acumulação de monstros sem qualquer sentido, mas tudo é tão  bem executado visualmente que não se pode deixar de perdoar seus defeitos. E é sempre divertido vê-los tentando espremer ainda mais de uma fórmula tão desgastada. Acaba por ser mais um filme de monstro da Universal que recomendo uma conferida.

FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM (1943)

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FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM (Frankenstein Meets the Wolf Man) foi o primeiro dos grandes crossovers de monstros da Universal. O que na verdade faz parte de uma tentativa desesperada de açoitar um cavalo morto. Já que o filme anterior do Monstro de Frankenstein já demonstrava o desgaste da fórmula*. Embora nos anos 40 ainda surgissem coisas interessantes, como O LOBISOMEM, que comentei no post anterior, ou passatempos patetas, como este aqui, que apesar da bobagem inerente da ideia, é um filme que acaba sendo bem mais divertido do que tinha o direito de ser…

*Quando me refiro a “desgaste da fórmula”, falo especificamente dos “filmes de monstros”… Frankenstein, Drácula, Homem Invisível, personagens que ganharam várias continuações na Universal. No entanto, de um modo geral, a Universal continuava fazendo filmes brilhantes de Horror.

Grande parte de FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM é mais uma continuação de O LOBISOMEM do que de FANTASMA DE FRANKENSTEIN. A trama se passa quatro anos após os eventos que levaram a Larry Talbot, o Lobisomem, mais uma vez encarnado por Lon Chaney Jr., à derrocada. Ladrões de túmulos invadem a cripta da família Talbot, acreditando que dinheiro e jóias foram enterrados com o corpo de Larry, mas quando abrem o caixão, com a lua cheia no céu, o Lobisomem volta à vida.

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Alguns dias depois, Larry acorda num hospital em Cardiff, bem longe do local onde estava seu túmulo. Sua surpresa por estar vivo logo dá lugar ao desespero quando percebe a terrível verdade: que não pode morrer. E tudo o que o sujeito quer é exatamente isso, morrer. Portanto, vai à procura de alguém que possa ajudá-lo. Ele encontra a cigana Maleva, a mãe de Bela, o homem que o transformou em um lobisomem no filme anterior. Maleva diz que há alguém que pode ajudá-lo: o famoso Dr. Frankenstein. Só que quando encontram o castelo de Frankenstein, descobrem que os moradores o incendiaram para destruir o Doutor e seu monstro, como vimos em FANTASMA DE FRANKENSTEIN. Mas no local, procurando os diários do cientista, Larry encontra o monstro envolto de gelo, vivo!

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Acreditando que o monstro pode lhe dizer onde os escritos do Dr. Frankenstein estão escondidos – que contêm o segredo da vida e da morte – Larry libera o monstro. Mas não conseguem encontrar os documentos.

Larry não desiste e encontra a filha do Dr. Frankenstein, que eventualmente ajuda a encontrar o diário do cientista. Na sua busca pela morte, Larry acha outro aliado, o médico que o tratou no hospital, o Dr. Frank Mannering, que restaura o laboratório de Frankenstein no castelo demolido para livrar o protagonista de sua agonia, mas os resultados não são exatamente o que Larry esperava.

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O fato de FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM funcionar de certa maneira tem muito a ver com as pessoas talentosas envolvidas na produção. Curt Siodmak havia escrito o belo roteiro de O LOBISOMEM, e mesmo que aqui a coisa não saia tão certo – a história é extremamente forçada e alguns diálogos são terríveis – dá pra perceber que contém algumas idéias interessantes. Roy William Neill era diretor de vários filmes de Sherlock Holmes da Universal e tinha jeito para suspense, para a construção de uma atmosfera gótica e sombria que ajuda a tornar o filme visualmente atrativo.

Além disso, temos mais uma vez Jack Pierce fazendo as maquiagens. As cenas de transformação do Lobisomem, por exemplo, são até melhores do que a do filme anterior do personagem. Tecnicamente, FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM acaba se revelando um filme muito bom, com vários ótimos momentos isolados. A revelação do monstro atrás da parede de gelo é um destaque, assim como o confronto maluco entre os dois personagens título perto do fim… Que poderia ter uma duração um pouco maior. Mas dá pro gasto.

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No elenco, Lon Chaney Jr mais uma vez apresenta uma performance sensível como o trágico Larry Talbot. E Bela Lugosi, depois de tentar o papel de monstro de Frankenstein desde o primeiro filme, lá em 1931, finalmente consegue encarnar o personagem. Não é das suas melhores atuações (ele está muito melhor como Ygor), mas o faz com certa personalidade. Claro, nem parece o mesmo monstro dos filmes anteriores, mas isso acaba não importando… Até porque esses filmes de monstros da Universal não estão nem aí para a lógica. No FANTASMA DE FRANKENSTEIN, por exemplo, haviam colocado o cérebro de Ygor no corpo do monstro. Mas ao acordar aqui, isso é totalmente ignorado e o personagem age como o monstro estúpido de sempre. Como disse, isso pouco importa.

No fim das contas, apesar dos realizadores estarem claramente espremendo as últimas gotas da laranja, FRANKENSTEIN ENCONTRA O LOBISOMEM é feito com um grau de habilidade que o material talvez nem merecesse… Mas é uma bobagem bem agradável de se assistir.